A tolerância é uma das
características da benevolência. Aquele, que já está a caminho do equilíbrio
diante das situações, que para muitos são embaraçosas, injustas e inoportunas
já sente o efeito da compreensão que lhe chega quando busca carregar a paz consigo.
E que paz! Paz que faz sentir tudo leve. Leve a dor, a ofensa, e as
indisposições que não o impede de continuar seguindo adiante apesar de todas as
adversidades. Paz que o faz não somente calar muitas vezes, freando os impulsos
mais latentes e que eram antes potencializados pela fremente necessidade de
mostrar-se totalmente dono da razão. Mas paz que o faz silenciar para evitar o
descontrole das emoções alheias.
Na tentativa que o incauto tem
de tentar ser o dono da razão absoluta, já sentiu antes, é claro, dono de tudo
o mais. Quem é tolerante/paciente nem se sente dono dos resultados positivos
que espera. Se vier, melhor. Se não vier, sabe aceitar com a mesma naturalidade
o que não estava dentro dos seus planos. Não sofre pela solução imediata das
coisas e nem sofre pelos tropeços do caminho. Já desenvolveu não só o
amor, mas a racionalidade. Aceita mudanças sem se revoltar com elas. Perde sem
se sentir desprovido de outros recursos. Conhece argumentos sem atrevimentos.
O tolerante sabe que o cárcere é de
barro, portanto, nada tem de definitivamente seu a não ser a paz que conquista.
Tem desenvolvido em si o sentimento nobre da justiça, da ponderação e não se
desequilibra por aquilo que para outros é o caos, diferente daquele que se
revolta por qualquer coisa que o contrarie.
Aquele que alcançou a tolerância não
se desconcerta, não oscila entre desespero e conformismo porque tem segurança
em si mesmo, e acima de tudo tem fé e sabe que Deus lhe reserva o que há de
melhor, e assim, espera com paciência. Não aquela paciência artificial de quem
se apresenta educado por fora e vítima das próprias inquietações que não
engana à ninguém, pois, a energia que lhe salta dos olhos é também de puro
desassossego. Mas a tranquilidade verdadeira!
Vemos pessoas onde nada se lhe
pode opor: nem ideias, nem pensamentos, nem gostos, onde se sente rebaixado
sempre que vê ferido o seu amor-próprio e com isso despeja o mal que de si
transborda.
Aquele que já admite a presença do
outro, com suas diferenças e o respeita em suas escolhas já evoluiu um
pouco mais, porque já descobriu que o próximo tem o seu próprio espaço e o seu
próprio tempo de amadurecer. Já que não somos como as frutas que
amadurecem na mesma época em meio ao mesmo pomar e sob os mesmos cuidados.
Se você deixou de protestar e de se
impacientar, nem por isso adquiriu a virtude da tolerância, porque para se
estar em harmonia com a vontade de Deus, não significa sermos neutros, nem
indiferentes, mas conscientes. Chega um ponto que é razoável pensar que não é
deixando de se manifestar com barulhos e algazarras na nossa discordância que
seremos chamados de tolerantes e abençoados, mas sim, quando resistirmos com o
tempo aos nossos próprios impulsos de discordância para com tudo e com todos e
frearmos o nosso desejo de sermos vistos injustiçados.
Quem ama tolera e quem tolera
não precisa entrar em choque com os outros, se satisfaz em respeitá-los não porque
lhes sejam superiores, mas porque vê no outro um irmão necessitado do mesmo
equilíbrio nosso, assim como outros nos compreendem na nossa ignorância.
Quando deixarmos de reagir da mesma
forma que ontem, teremos subido mais um degrau da humildade e nos
conscientizaremos que, em circunstâncias semelhantes de provações nos revelamos
mais ajustados, ou não, com as leis que amorosamente regem as nossas
vidas.
Contribuição da confreira: Graciley Menezes
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